{"id":20511,"date":"2019-06-25T09:17:11","date_gmt":"2019-06-25T12:17:11","guid":{"rendered":"https:\/\/souzalima.com.br\/blog\/?p=20511"},"modified":"2024-09-24T09:19:43","modified_gmt":"2024-09-24T12:19:43","slug":"quero-ser-musicista-entrevista-isis-biazioli","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/souzalima.com.br\/blog\/quero-ser-musicista-entrevista-isis-biazioli\/","title":{"rendered":"Quero ser Musicista Entrevista: \u00cdsis Biazioli"},"content":{"rendered":"<p><strong><em>O projeto de entrevistas Quero ser Musicista segue sua toada de ampla aprendizagem. Hoje a entrevistada \u00e9 a doutoranda em musicologia \u00cdsis Biazioli. Uma figura de paz, harmonia, de palavras dosadas e certeiras! Uma educadora especial que eu muito admiro em suas diferentes matizes.<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>Sua entrevista \u00e9 uma possibilidade de visualiza\u00e7\u00e3o profissional incr\u00edvel. Um percurso repleto de \u00eaxitos acad\u00eamicos e pedag\u00f3gicos. A entrevista faz pensar, faz sonhar! E o que seria de n\u00f3s sem o sonho?\u00a0<\/em><\/strong><strong><em>Aprecie!<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>Chegamos em nossa oitava entrevistada! Ser\u00e3o vinte! Vamos em frente!<\/em><\/strong><\/p>\n<h2><strong>ENTREVISTA #8<\/strong><\/h2>\n<p><strong>Nome: <\/strong>\u00cdsis Biazioli de Oliveira<\/p>\n<p><strong>Cidade Natal: <\/strong>S\u00e3o Paulo<\/p>\n<p><strong>Ano de Nascimento: <\/strong>1987<\/p>\n<p><strong>Instrumento: <\/strong>Piano<\/p>\n<p><strong>Forma\u00e7\u00e3o Acad\u00eamica:\u00a0<\/strong>Entrei na USP no curso de bacharelado em piano em 2007, mas a partir de 2008 mudei para licenciatura em m\u00fasica, habilita\u00e7\u00e3o na qual me formei em 2011. Em 2012 ingressei no mestrado em Processos de Cria\u00e7\u00e3o Musical, tamb\u00e9m na USP. Sob orienta\u00e7\u00e3o do Professor Doutor Paulo de Tarso Salles entreguei a disserta\u00e7\u00e3o \u201cProcessos Composicionais no <em>Kyrie<\/em> do <em>R\u00e9quiem<\/em> de Ligeti\u201d em 2014. No ano seguinte, ingressei em Musicologia na USP, onde estou prestes a entregar a minha tese sobre a <em>Sinfonia Fausto<\/em> do Liszt sob orienta\u00e7\u00e3o do Professor Doutor Mario Videira.<\/p>\n<p><strong>Forma\u00e7\u00e3o Livre: <\/strong>Iniciei minha forma\u00e7\u00e3o na ULM, atual EMESP, com a professora Donata Lange, em piano erudito. L\u00e1, tive minha forma\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica e te\u00f3rica b\u00e1sica. Al\u00e9m disso, fui ao Festival de Po\u00e7os de Caldas e mantenho uma forma\u00e7\u00e3o continuada em mini-cursos ou palestras que s\u00e3o dadas geralmente nas universidades ou em congressos acad\u00eamicos sobre m\u00fasica.<\/p>\n<p><em><strong>1) Como foi seu envolvimento inicial com a m\u00fasica? Quando decidiu intensificar a atua\u00e7\u00e3o e de fato profissionalizar-se?<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Comecei cedo aos 7 ou 8 anos de idade e nem sabia muito bem o que queria. Meus pais falaram para eu fazer um teste para ingressar na ULM (atual EMESP) e depois disseram que eu tinha passado. O primeiro ano foi s\u00f3 de musicaliza\u00e7\u00e3o. Dali h\u00e1 pouco perguntaram qual instrumento eu queria tocar. Nem sabia o que responder. Sem saber quais eram todas as possibilidades, pensei em piano e viol\u00e3o, mas viol\u00e3o s\u00f3 tinha vaga para maiores de 12 anos, eu acho. Acabei indo pro piano. Confesso que, de in\u00edcio, eu n\u00e3o gostava muito. Fui ficando mais interessada na medida que os anos se passaram e me senti capaz para tocar m\u00fasicas mais complexas, mais interessantes, do meu ponto de vista.<\/p>\n<p>Lembro que quando tinha uns 12-13 anos, j\u00e1 gostava bastante de piano e m\u00fasica (sempre gostei das mat\u00e9rias te\u00f3ricas, tamb\u00e9m, o que ali\u00e1s veio a ser o foco da minha atua\u00e7\u00e3o acad\u00eamica), mas achava que a atividade musical era apenas <em>hobby<\/em>. Quando estava no ensino m\u00e9dio, minha irm\u00e3 entrou na UNESP, bacharelado em Artes Pl\u00e1sticas. Foi s\u00f3 a\u00ed que uma chave virou na minha cabe\u00e7a. Uau, ent\u00e3o Artes tamb\u00e9m pode ser profiss\u00e3o, pode ser estudado na faculdade? Uma loucura, n\u00e9? Embora eu tivesse aulas com v\u00e1rios professores, profissionais da m\u00fasica, s\u00f3 fui pensar a s\u00e9rio sobre isso quando vi a coragem da minha irm\u00e3 em seguir em uma carreira n\u00e3o tradicional e lutar por isso, contra a vontade dos meus pais.<\/p>\n<p><em><strong>2) Quais as principais barreiras encontradas para o desenvolvimento de sua carreira?\u00a0<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Acho que a principal barreira \u00e9 o estigma social. Aquilo que eu disse antes, quanto tempo demorou at\u00e9 eu me ligar que m\u00fasica \u00e9 e pode ser uma profiss\u00e3o? Voc\u00ea diz que vai prestar m\u00fasica e j\u00e1 come\u00e7am, mas e tal profiss\u00e3o, e tal outra e tal outra? \u00c9 claro que essa fase da escolha de uma profiss\u00e3o \u00e9 sempre confusa e que a gente tem que pensar em v\u00e1rias op\u00e7\u00f5es antes de se decidir. Mas por que ser\u00e1 que, mesmo depois de decididos, a gente n\u00e3o recebe tanto apoio? Meu pai tinha o sonho que um dos filhos fosse engenheiro. Nunca ouvi ningu\u00e9m falando que o pai sonhou em ter um filho m\u00fasico.<\/p>\n<p>Outra barreira que eu encontrei foi achar um lugar na minha cabe\u00e7a para a minha atividade. Fui a primeira pessoa a fazer m\u00fasica na minha fam\u00edlia nuclear (ao mesmo tempo, tive outros dois primos por parte de pai). Por mais que eu vivenciasse a rotina de estudos di\u00e1rios desde pequena, acho que eu sempre me boicotei um pouco. O primeiro caso, mais grave, foi quando tive depress\u00e3o no primeiro ano da faculdade. Lembro de achar que aquele lugar n\u00e3o era pra mim, que eu nem era t\u00e3o boa assim, tinha medo de estudar e n\u00e3o dar em nada. \u00c9 claro que isso tudo teve um pouco a ver com os meus pr\u00f3prios problemas ps\u00edquicos, mas tamb\u00e9m uma autoimposi\u00e7\u00e3o de achar que eu s\u00f3 teria lugar na m\u00fasica se eu fosse, disparado, A melhor entre todos os outros. Como se a m\u00fasica fosse feita s\u00f3 por e para UM Nelson Freire enquanto todos os outros passam fome.<\/p>\n<p>Demorei a perceber que o campo da m\u00fasica s\u00e3o muitas coisas diferentes: \u00e9 dar aula, \u00e9 ser camerista, \u00e9 pesquisar, \u00e9 entender de teoria, de an\u00e1lise musical (para citar s\u00f3 as portas que eu decidi abrir ao longo do meu caminho). Claro que a compet\u00eancia \u00e9 super importante, mas quando o medo de n\u00e3o chegar no lugar mais alto do p\u00f3dio \u00e9 t\u00e3o grande que voc\u00ea nem consegue dar os primeiros passos, a\u00ed voc\u00ea tem um problema.<\/p>\n<p>Acho que isso tamb\u00e9m tem um pouco a ver com o mito do artista. A gente que come\u00e7a muito cedo nas artes, logo est\u00e1 num palco, logo \u00e9 aplaudido, mas n\u00e3o sabe interpretar isso de modo maduro. \u00c9 dif\u00edcil quando se \u00e9 adulto e mais ainda quando se tem 8-10 anos de idade, entender que os aplausos n\u00e3o se referem a pessoa do artista (e nossa m\u00eddia personalista, n\u00e3o ajuda muito, tamb\u00e9m, n\u00e9?!).<\/p>\n<p>As pessoas gostam de um trabalho, do resultado de um processo de estudo e dedica\u00e7\u00e3o, n\u00e3o do indiv\u00edduo. Se a gente n\u00e3o sabe fazer essa separa\u00e7\u00e3o e acredita, de alguma forma, em talento, uma hora ou outra a gente acaba ficando com medo de perder o amor de quem est\u00e1 mais pr\u00f3ximo se a gente errar ou n\u00e3o for t\u00e3o bem. O problema \u00e9 que n\u00e3o existe estudo, n\u00e3o existe progresso e, no final, n\u00e3o existe \u00eaxito, sem erros, sem trope\u00e7os, sem dificuldades. Estudar m\u00fasica \u00e9 aprender a ouvir os pr\u00f3prios erros todos os dias, especialmente no estudo de um instrumento, e tentar levar isso de modo leve, org\u00e2nico e natural. O que importa \u00e9 se manter tentando, buscando o melhor.<\/p>\n<p><em><strong>3) Como \u00e9 gerir uma carreira que possui a doc\u00eancia e o vi\u00e9s acad\u00eamico ciente de que est\u00e1 concluindo o doutoramento?<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Olha, eu venho de uma fam\u00edlia que sempre valorizou muito os estudos. Meu pai lutou muito pra concluir uma faculdade e deixou de legado para todos os seus filhos (somos em quatro) o valor do estudo e, especificamente, da academia. Todos meus irm\u00e3os foram para a p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. Acho que, para mim, esse foi um sonho natural. N\u00e3o bastava me formar. J\u00e1 na gradua\u00e7\u00e3o fiz Inicia\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica e parecia \u00f3bvio que eu faria Mestrado. Para come\u00e7ar o doutorado, confesso que fiquei na d\u00favida, porque j\u00e1 estava um pouco cansada. E muita gente me incentivou a seguir (professores\/as, marido, amigos\/as), para que aproveitasse o f\u00f4lego e a juventude, porque depois seria mais dif\u00edcil. N\u00e3o sei. De alguma maneira, tinha o sonho de ser professora universit\u00e1ria e o doutorado \u00e9 pr\u00e9-requisito para se prestar um concurso de docente superior em uma universidade p\u00fablica e \u00e9 exigido em muitas universidades particulares tamb\u00e9m. \u00c9 claro que para seguir na \u00e1rea acad\u00eamica precisa tamb\u00e9m gostar da pesquisa e do trabalho de investiga\u00e7\u00e3o em m\u00fasica, mas estaria mentindo se negasse que a doc\u00eancia em n\u00edvel superior n\u00e3o me encanta. \u00c9 muito triste ver o que est\u00e3o fazendo com a universidade, com a pesquisa e a ci\u00eancia no pa\u00eds. De qualquer maneira, comecei a minha carreira acad\u00eamica no per\u00edodo de maior efervesc\u00eancia da atividade universit\u00e1ria do pa\u00eds. Eram muitas faculdades de m\u00fasica abrindo, programas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em m\u00fasica sendo ampliados ou abrindo, colegas mais velhos sendo contratados como professores nas universidades federais. Agora, n\u00e3o sei como ser\u00e1. De qualquer maneira, acabando o doutorado, vou fazer quest\u00e3o de me dedicar um pouco mais ao piano e a atividade camerista: sugerir recitais, tentar gravar v\u00eddeos e fazer crescer um pouco o lado art\u00edstico que ficou dif\u00edcil de seguir a partir do momento que decidi fazer mestrado e doutorado em \u00e1reas te\u00f3ricas. E, claro, surgindo a oportunidade de dar aula no ensino superior, seja a partir de concursos para as universidades p\u00fablicas, seja sendo admitida em alguma universidade privada, seria \u00f3timo. Se n\u00e3o der, tamb\u00e9m sou muito feliz em ser professora de inicia\u00e7\u00e3o e forma\u00e7\u00e3o musical b\u00e1sica. Por fim, gosto de dar aulas em geral!<\/p>\n<p><em><strong>4) Como gere a pr\u00e1tica instrumental, manuten\u00e7\u00e3o e desenvolvimento t\u00e9cnico, e os projetos de pesquisa e atividades t\u00edpicas do mundo acad\u00eamico?<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Confesso que as exig\u00eancias acad\u00eamicas (quantidade de leituras, o trabalho da escrita, especialmente para quem n\u00e3o escolhe uma p\u00f3s em performance) e de manuten\u00e7\u00e3o da vida (quantidade de aulas para sa\u00fade financeira da fam\u00edlia) dificultam a pr\u00e1tica do instrumento. De qualquer maneira, acho que algumas coisas ajudam. Hoje tenho uma maturidade que n\u00e3o tinha nos tempos de estudante. Embora as atividades docente e acad\u00eamica limitem um pouco o tempo dispon\u00edvel para o estudo, elas tamb\u00e9m nos ajudam a estudar com mais consci\u00eancia. Consci\u00eancia corporal, consci\u00eancia do material musical e suas exig\u00eancias, consci\u00eancia dos processos de aprendizagem. Lembro que quando entrei em bacharelado em piano na USP, uma das primeiras dicas da Professora Luciana Sayuri foi para que eu come\u00e7asse a dar aulas. A gente aprende muito, enquanto ensina. Tenho a n\u00edtida sensa\u00e7\u00e3o de que uma hora de estudo ao piano hoje \u00e9 infinitamente mais produtiva do que j\u00e1 foi. \u00c9 claro que existe um limite. Se voc\u00ea der 60 horas de aulas na semana, n\u00e3o tem como manter o instrumento. N\u00e3o d\u00e1 pra confiar apenas na maturidade e deixar de lado a pr\u00e1tica, os exerc\u00edcios, a rotina. Mas a\u00ed \u00e9 valorizar os momentos mais dispon\u00edveis e ter paci\u00eancia com os momentos mais dif\u00edceis (todo professor sabe que fim de semestre ou v\u00e9spera de apresenta\u00e7\u00e3o de alunos \u00e9 uma loucura; pra quem est\u00e1 na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o s\u00e3o os prazos dos relat\u00f3rios, da qualifica\u00e7\u00e3o, da entrega e dos eventos acad\u00eamicos). Acho que precisa tentar equilibrar as atividades e ter consci\u00eancia que, depois de um per\u00edodo sem estudar, a gente n\u00e3o vai sair tocando um Estudo Transcendental no primeiro dia e estudar 6 horas direto, da primeira vez que sentar para tocar. Tem que alongar, fazer escalas, exerc\u00edcios b\u00e1sicos, tocar passagens dif\u00edceis em andamento lento e ir aumentando o tempo de estudos aos poucos, com paci\u00eancia, responsabilidade e seguran\u00e7a para sa\u00fade corporal. Afinal, tocar um instrumento \u00e9 tamb\u00e9m uma atividade corporal.<\/p>\n<p><strong><em>5) No mestrado voc\u00ea desenvolveu um estudo sobre processos composicionais. Voc\u00ea tamb\u00e9m comp\u00f5e? Se sim, como as pr\u00e1ticas da an\u00e1lise contribuem com a forma\u00e7\u00e3o do compositor? E quais metodologias foram adotas no desenvolvimento da disserta\u00e7\u00e3o?<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Eu n\u00e3o componho. \u00c9 muito comum associar a atividade de analista musical com a de compositor e muitos s\u00e3o os analistas que tamb\u00e9m s\u00e3o compositores. Mas isso n\u00e3o \u00e9 uma exig\u00eancia completa. A Prof. Adriana Lopes da Cunha Moreira (USP), por exemplo, tamb\u00e9m faz an\u00e1lise musical e n\u00e3o \u00e9 compositora. \u00c9 claro que fiz aulas de harmonia, de contraponto e etc, mas o meu interesse \u00e9 tentar entender o racioc\u00ednio e os padr\u00f5es por tr\u00e1s do que j\u00e1 foi escrito e n\u00e3o produzir algo novo.<\/p>\n<p>Para um compositor, mesmo que n\u00e3o tenha o interesse em seguir academicamente na \u00e1rea da an\u00e1lise musical, a an\u00e1lise \u00e9 uma t\u00e9cnica imprescind\u00edvel. Acredito que, pelo menos depois da \u00e9poca moderna e especialmente a partir do fim do s\u00e9c. XVIII at\u00e9 hoje, m\u00fasica \u00e9 um di\u00e1logo transtemporal entre obras de diversos per\u00edodos hist\u00f3ricos distintos. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel criar algo novo sem saber o que j\u00e1 foi feito e como foi feito e isso a gente aprende com a an\u00e1lise musical. Algum chef de cozinha j\u00e1 criou um prato sem saber fazer os cl\u00e1ssicos da culin\u00e1ria? Gy\u00f6rgy Ligeti, o compositor que pesquisei no mestrado foi chamado a dar aulas de composi\u00e7\u00e3o nos Cursos de Ver\u00e3o de Darmstadt (os principais cursos da vanguarda musical da metade do s\u00e9culo XX) e l\u00e1 ele dava aula de contraponto tradicional. Anton Webern, compositor que pesquisei na Inicia\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica, estudou a obra de Heinrich Isaac. Liszt, o compositor que estou estudando agora, tem sempre Beethoven nos ombros: arranjou todas as sinfonias de Beethoven para piano, foi um dos primeiros a tocar as \u00faltimas sonatas do compositor alem\u00e3o e sempre fez quest\u00e3o de reger suas obras. Isso, inevitavelmente tem impacto na sua pr\u00e1tica composicional. S\u00e3o muitos os exemplos de di\u00e1logos entre os compositores. H\u00e1 at\u00e9 um doutorado na USP, do Max Packer, que estuda casos de obras que nasceram do coment\u00e1rio de outras obras. \u00c9 poss\u00edvel ler a tese no link a seguir: (<a href=\"http:\/\/www.teses.usp.br\/teses\/disponiveis\/27\/27158\/tde-11032019-113922\/pt-br.php\">http:\/\/www.teses.usp.br\/teses\/disponiveis\/27\/27158\/tde-11032019-113922\/pt-br.php<\/a>).<\/p>\n<p>Sobre o meu mestrado, bom, eu analiso um dos movimentos do R\u00e9quiem (missa f\u00fanebre) de Gy\u00f6rgy Ligeti: o Kyrie, uma pe\u00e7a no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1960, per\u00edodo em que o compositor estava explorando as satura\u00e7\u00f5es crom\u00e1ticas. Come\u00e7o observando a microestrutura da obra, com an\u00e1lise da organiza\u00e7\u00e3o intervalar nota-a-nota. Discuto a\u00ed a cadeia de ter\u00e7as impl\u00edcita \u00e0 escrita do primeiro sujeito Kyrie Eleison (porque a pe\u00e7a \u00e9 uma fuga) e as simetrias do sujeito Christie Eleison, um sujeito escrito em falso contraponto num todo expans\u00edvel. No segundo cap\u00edtulo observo a superf\u00edcie aud\u00edvel da pe\u00e7a: discuto o porqu\u00ea da escrita nota-a-nota n\u00e3o ser sempre aud\u00edvel e o papel das ilus\u00f5es sonoras na constru\u00e7\u00e3o de uma pe\u00e7a que flerta com a tradi\u00e7\u00e3o da m\u00fasica eletroac\u00fastica, embora seja escrita para grande orquestra. No \u00faltimo cap\u00edtulo, explico a estrutura da pe\u00e7a, ou seja, como \u00e9 constru\u00edda a fuga e sua rela\u00e7\u00e3o com a tradi\u00e7\u00e3o de fugas. Como podemos ver desde as fugas de Bach, ou at\u00e9 antes, a estrutura da pe\u00e7a j\u00e1 \u00e9 anunciada no in\u00edcio da obra com o Sujeito Christie Eleison. Por fim, ao longo do trabalho estou o tempo inteiro comentando a rela\u00e7\u00e3o da obra com v\u00e1rias tradi\u00e7\u00f5es musicais: a import\u00e2ncia da cadeia de ter\u00e7as em pe\u00e7as tonais do final do s\u00e9c. XVIII e s\u00e9c. XIX (uso inclusive um suporte t\u00edpico para a an\u00e1lise de m\u00fasica tonal, o <em>Tonnetz<\/em>, dos neo-riemannianos), os falsos contrapontos t\u00edpicos da escrita bachiana para instrumento solo, a busca sonora advinda das produ\u00e7\u00f5es eletroac\u00fasticas, a longa tradi\u00e7\u00e3o de escritas de fuga. Essa rela\u00e7\u00e3o entre tradi\u00e7\u00e3o e inova\u00e7\u00e3o\/ruptura, t\u00e3o cara \u00e0 era moderna, \u00e9 muito marcante em Ligeti e acho que exemplifica muito bem o papel da an\u00e1lise musical no ato composicional.<\/p>\n<p><em><strong>6) Como verifica a carreira do musicista hoje em compara\u00e7\u00e3o ao momento em que profissionalizou, tanto sobre mercado quanto sobre a forma\u00e7\u00e3o, hoje com gradua\u00e7\u00e3o, e faculdade como percurso praticamente realizado por todos, \u00e9 mesmo fundamental graduar-se para ingressar na carreira de musicista?<\/strong><\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o sei se saberei responder ao certo. Uma vez o Arnaldo Cohen falou para o meu marido que nos \u00faltimos tempos, diferente de quando ele estava em forma\u00e7\u00e3o, existem profissionais muito bem qualificados no Brasil e que n\u00e3o \u00e9 estritamente necess\u00e1rio fazer a forma\u00e7\u00e3o fora do pa\u00eds. Eu acredito na academia e pessoalmente a faculdade me ajudou muito. N\u00e3o posso dizer que \u00e9 assim para todos. Sei de gente que tinha uma \u00f3tima forma\u00e7\u00e3o anterior e que a busca do diploma foi uma busca burocr\u00e1tica, especialmente para a gera\u00e7\u00e3o que tem mais de 40\/50 anos hoje. Para mim, a gradua\u00e7\u00e3o abriu os meus olhos para o imenso leque de possibilidades profissionais que existem na m\u00fasica. E posso dizer com certeza, 90% de tudo o que sei a respeito de an\u00e1lise musical, teoria musical, hist\u00f3ria da teoria, est\u00e9tica e sobre o repert\u00f3rio, especialmente do s\u00e9culo XX, eu conhe\u00e7o gra\u00e7as aos professores da USP e aos trabalhos, autores e eventos acad\u00eamicos que tive contado a partir do momento que entrei na gradua\u00e7\u00e3o. Isso sem contar na riqu\u00edssima oportunidade de conhecer aqueles que ser\u00e3o os seus colegas e amigos de profiss\u00e3o. Os primeiros alunos que tive e muitos dos novos alunos que continuam me procurando s\u00e3o indica\u00e7\u00e3o de amigos do tempo da gradua\u00e7\u00e3o ou de professores da USP. \u00c9 claro que quanto mais tempo de trabalho, mais essa rede de contatos vai aumentando, mas, no meu caso, a faculdade foi e ainda \u00e9 muito importante tamb\u00e9m nesse sentido. Mas como disse, isso \u00e9 a minha experi\u00eancia. De qualquer maneira, sempre existe o que ser aprendido e se estamos abertos aos ensinamentos dos outros, podemos nos enriquecer em qualquer lugar. J\u00e1 aprendi muito com meus alunos tamb\u00e9m.<\/p>\n<p><em><strong>7) Os mesmos problemas que temos na sociedade brasileira se refletem no mercado musical? As oportunidades e consolida\u00e7\u00e3o da carreira das musicistas \u00e9 o mesmo para os musicistas? Como foi essa consolida\u00e7\u00e3o para voc\u00ea?\u00a0<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Essa \u00e9 uma pergunta dif\u00edcil. Se voc\u00ea quiser alguma hist\u00f3ria de preconceito expl\u00edcito, eu n\u00e3o terei pra te dar, mas as vezes fico me perguntando se as minhas pr\u00f3prias escolhas e meus medos n\u00e3o s\u00e3o um reflexo do machismo estrutural na nossa sociedade. L\u00e1 em cima, por exemplo, voc\u00ea me perguntou se eu compunha. N\u00e3o, n\u00e3o sou compositora. Por que ser\u00e1 que n\u00e3o sou compositora? Quantas s\u00e3o as compositoras que a gente conhece? Nos programas de forma\u00e7\u00e3o de piano, nos repert\u00f3rios de confronto dos concursos de piano e provas, quantas s\u00e3o as obras de mulheres? Quantas m\u00fasicas de compositoras exemplificam quest\u00f5es harm\u00f4nicas, mel\u00f3dicas, enfim, musicais nos livros de teoria e an\u00e1lise? Quais os livros que a gente usa que s\u00e3o escritos por mulheres? E esses s\u00e3o apenas alguns exemplos da minha \u00e1rea de atua\u00e7\u00e3o espec\u00edfica. Toda essa sensa\u00e7\u00e3o de que, anteriormente eu falei, de uma falta de sensa\u00e7\u00e3o de pertencimento, n\u00e3o s\u00e3o os impactos dos silenciamentos das mulheres na nossa sociedade? Por que passar no vestibular n\u00e3o foi suficiente para eu acreditar que poderia fazer m\u00fasica na USP? O que tenho visto, \u00e9 o impacto dessas exclus\u00f5es sociais nos dilemas ps\u00edquicos das mulheres. J\u00e1 ouviu falar em S\u00edndrome do Impostor? S\u00e3o pessoas que, por mais competentes que sejam, por mais provas que tenham dessa compet\u00eancia, s\u00e3o incapazes de acreditar que s\u00e3o capacitadas. N\u00e3o acho que seja coincid\u00eancia que eu tenho visto exemplos claros dessa s\u00edndrome em quase todas, sen\u00e3o todas as mulheres que conhe\u00e7o na academia. Nunca vi um professor pedir desculpas por n\u00e3o ter preparado uma aula, mas j\u00e1 vi uma professora de p\u00f3s, que deu uma excelente aula, fazer isso! Da mesma forma que vi professoras, vi tamb\u00e9m colegas e alunas com uma inseguran\u00e7a desmedida. E talvez o que fique assim, no subterr\u00e2neo, seja ainda mais perigoso. A gente acaba acreditando que somos medrosas, menos corajosas, menos produtivas e esquece quantas s\u00e3o as barreiras invis\u00edveis que estamos transpondo todos os dias.<\/p>\n<p><strong><em>Perfeita an\u00e1lise \u00cdsis.<\/em><\/strong><\/p>\n<p><em><strong>8) Mas ent\u00e3o como evoluir em oportunidades para que a procura por uma sociedade mais justa se reflita antes em nossa \u00e1rea de atua\u00e7\u00e3o profissional?<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Eu, pessoalmente, tenho tentado dar visibilidade \u00e0s mulheres. Mas isso precisa ser buscado, ser pesquisado. Simplesmente porque o trabalho delas \u00e9 excelente, mas a gente fica sem saber. Fiz toda a minha forma\u00e7\u00e3o de piano sem nunca tocar nem ao menos uma obra de uma mulher. E isso n\u00e3o \u00e9 exce\u00e7\u00e3o. Por isso, sempre que posso, tento pesquisar repert\u00f3rio de mulheres para os\/as meus\/minhas alunos\/as tocarem: o \u00c1lbum da Juventude da Cecile Chaminade, por exemplo, \u00e9 incr\u00edvel! Tenho uma aluna que se apaixonou pela <em>Lua Branca<\/em> da Chiquinha Gonzaga! E foi uma vit\u00f3ria pra ela, que sempre teve resist\u00eancia em ler partitura, gostou tanto da pe\u00e7a que fez praticamente sozinha. Tive que dizer apenas duas ou tr\u00eas dicas para a pe\u00e7a ficar redonda! Tenho um duo com a pianista Denise Perez e fazemos quest\u00e3o de ter compositoras nos nossos programas: al\u00e9m da Chaminade, a Melanie Bonis, a Fanny Mendelssohn, a Clara Schumann\u2026.. Na Inicia\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica, um dos principais trabalhos que usei foi de uma mulher: a Kathryn Bailey. No mestrado, a Prof. Yara Caznok e Jane P. Clendinning foram muito importantes. Agora, no doutorado, o trabalho da Janet Schmalfeldt est\u00e1 sendo decisivo para eu encontrar o caminho para responder a minha quest\u00e3o central. E \u00e9 isso, na verdade, os trabalhos e as composi\u00e7\u00f5es s\u00e3o espantosamente bons! Depois que voc\u00ea os conhece, n\u00e3o tem como n\u00e3o us\u00e1-los. Isso n\u00e3o significa que eu recuso agora os trabalhos e composi\u00e7\u00f5es de homens. N\u00e3o \u00e9 nada disso, mas fico atenta para ver se tamb\u00e9m as mulheres est\u00e3o sendo ouvidas e estudadas.<\/p>\n<p><em><strong>9) Quais projetos ocorrer\u00e3o a seguir da defesa de sua tese de doutorado?<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Nossa, nem tive muito tempo para pensar sobre isso\u2026. Estou no olho do furac\u00e3o, correndo para que o prazo n\u00e3o me pegue despreparada. De modo gen\u00e9rico, quero ter mais tempo para tocar, isso com certeza. Talvez eu tente mandar um trabalho para um congresso internacional que ter\u00e1 na It\u00e1lia, mas inda n\u00e3o sei se conseguirei. E acho que vou tentar escrever um artigo com os principais resultados da tese para tentar alguma publica\u00e7\u00e3o em revista internacional. Tamb\u00e9m vou querer pesquisar repert\u00f3rios diferentes para os meus alunos, dar uma incrementada nas minhas aulas e correr atr\u00e1s de oportunidades na doc\u00eancia de ensino superior. Mas como eu disse, \u00e9 tudo vago ainda. Agora, tenho que saber como terminar os cap\u00edtulos, como amarrar as discuss\u00f5es que estou levantando e como comprovar de modo contundente e sistem\u00e1tico que a minha hip\u00f3tese inicial estava certa! E estava!<\/p>\n<p><strong><em>Car\u00edssima \u00cdsis, agrade\u00e7o muit\u00edssimo a entrevista.\u00a0<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>A contribui\u00e7\u00e3o com uma nova gera\u00e7\u00e3o de m\u00fasicos profissionais, melhor formada, mais informada \u00e9 um legado que com certeza teremos em comum.<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>Um abra\u00e7o.<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>Professor Jo\u00e3o Marcondes.<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong>Entrevista realizada em 24 de junho de 2019 por e-mail.<\/strong><\/p>\n<p>#VemProSouza<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O projeto de entrevistas Quero ser Musicista segue sua toada de ampla aprendizagem. Hoje a entrevistada \u00e9 a doutoranda em musicologia \u00cdsis Biazioli. Uma figura de paz, harmonia, de palavras dosadas e certeiras! Uma educadora especial que eu muito admiro em suas diferentes matizes. 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