Society for Music Theory (SMT) 40th Annual Meeting

Society for Music Theory (SMT)

Esta temporada entre Agosto de 2017 e maio de 2018 eu estou aqui em Nova York realizando parte do meu doutorado (num período conhecido como “sanduíche”) como bolsista do programa Fulbright na CUNY (City University of New York). Neste período, o meu orientador é o Prof. Dr. Joseph Straus, um dos mais importantes pesquisadores da teoria musical da atualidade, autor de dezenas de artigos acadêmicos relevantes e também de livros, incluindo o Introduction to Post-Tonal Theory (publicado nos anos noventa e hoje na sua 4a edição) que tem até a sua versão em português, Introdução à Teoria Pós-Tonal (trad. Ricardo M. Bordini, Ed. Unesp, 2013).

Minha rotina por aqui se resume a reuniões semanais com o Prof. Straus, assistir as aulas de sua disciplina como ouvinte, dar aulas pelo Skype para meu alunos brasileiros, muita leitura, muito estudo e muito trabalho, tanto em meu projeto de Doutorado que tem os Estudos para Violão de Villa-Lobos como tema, como no projeto paralelo sobre Teoria Neoriemanniana que tenho desenvolvido com o Prof. Straus nesse período. Contudo, na semana passada essa rotina foi quebrada pois eu fui para Arlington-VA para assistir a Society for Music Theory 40th Annual Meeting, a conferência anual dessa sociedade dedicada a pesquisa da teoria musical que tem tamanho impressionante, contando com centenas (talvez milhares) de sócios e que, além da conferência anual, mantém revistas acadêmicas importantes como o Music Theory Spectrum e o Music Theory Online (para quem quiser conhecer um pouco mais da SMT, esse é o site: societymusictheory.org). As proporções dessa conferência anual também são incríveis, são quatro dias com comunicações, palestras, seções de poster, reuniões de grupos de pesquisa e muita troca de informações das 9:30 da manhã até as 22:30. Todos os grandes nomes da teoria musical norte-americana (e alguns de outros países) estavam lá, como o próprio Joseph Straus, Wiliam Caplin, Nicole Biamonte, Richard Cohn, Drew Nobile, entre muitos outros. Nesse post, eu irei falar um pouco sobre algumas das mesas e das comunicações que eu assisti e que eu acho que estão alinhadas a pesquisas importantes da teoria musical.

1 – Tópicos em teoria musical geométrica [Topics in Geometrical Music Theory]

Essa mesa organizada pela Profa. Dra. Rachel Hall (Saint Joseph’s University) apresentou comunicações sobre esse assunto que para alguns músicos é um pouco difícil de assimilar, a possibilidade de se representar objetos musicais através da geometria (e da matemática mais genericamente). Apesar de muitos entortarem o nariz para essa relação entre as duas áreas, ela não é nova e remonta o pitagorismo, além disso, essa interação é crescente na nova pesquisa sobre música. Vou destacar três comunicações dessa mesa:

Formas Normais Generalizadas [Generalized Normal Forms] – foi apresentada pelo Prof. Dr. Julian Hook (Indiana University). Para quem não sabe, a teoria dos conjuntos foi adaptada para a música nos anos 70 por Arlen Forte e se mostrou ser uma ferramenta eficiente, sobretudo para a análise de música atonal e pós-tonal. Dentre as várias operações em módulo 12 (mod-12) para se determinar um conjunto de alturas musicas [pitch set], as mais decisivas são o cálculo da forma normal e da forma prima, que simbolizam um conjunto de alturas da maneira mais simples possível, levando em conta a equivalência de oitava (O), de permutação (P) de transposição (T), de inversão (I) e de cardinalidade (C), num mnemônico com a palavra OPTIC. Assim, um conjunto pode ser reduzido a uma série de números, por exemplo, [1,5,9] é a forma normal que representa a tríade de Ré aumentada e a forma prima é (048). A questão é que o Dr. Hook apresentou, além dessas duas maneiras, apresentou mais 30 diferentes, eliminando uma equivalência de OPTIC a cada passo. Dessa maneira ele apresentou 32 formas normais diferentes para cada conjunto e algumas delas são muito interessantes pois podem expressar características musicais que as duas mais comuns não fazem, como o contorno de uma melodia, por exemplo;

Espaços Genéricos de Vozes Condutoras [Generic (Mod-7) Voice-Leading Spaces] –  foi apresentada pela jovem graduanda Leah Frederick (Indiana University). Nessa comunicação a teoria dos conjuntos foi adaptada à coleção diatônica (mod-7 ao invés de mod-12) seguindo o lastro teórico de John Clough, cuja pesquisa apresentou formas normais e primas adaptadas para sete e não doze notas. O trabalho original de Frederick foi de ter explorado e mapeado os espaços musicais com essa teoria que pode gerar impactos tanto na própria teoria dos conjuntos, como na teoria neoriemanniana;

Quase Simetria: Uma Teoria da Qualidade do Acorde e suas implicação para a Condução de Vozes [Near–Symmetry: A Theory of Chord Quality with Implications for Voice Leading] – foi apresentado pela Profa. Dra. Inés Thiebaut (University of Utah) e pelo Prof. Dr. Nicholas R. Nelson (Stony Brook University). Nessa comunicação, os autores pretendem criar uma relação menos polarizada do que acordes simétricos versus acordes não simétricos, indicando que determinados acordes (ou qualquer outro conjunto de alturas) possam ser quase simétricos. A dupla determinou dois tipos de quase simetria, o tipo 1 contém aqueles acordes que se tornariam simétricos através do deslocamento de semitom em uma de suas notas e o tipo 2 contém aqueles acordes que se tornariam simétricos com a adição de uma nota. Os dois professores apresentaram inúmeras tabelas de transformação de acordes quase simétricos (tanto do tipo 1 como do 2) em simétricos.

2 – Tonalidade no Rock [Tonality in Rock]

Essa mesa organizada pela Profa. Dra. Nicole Biamonte (McGill University) apresentou tópicos de harmonia no gênero Rock. O Rock foi um gênero que demorou para ter uma pesquisa acadêmica séria, sendo praticamente ignorado pela academia até o fim do século passado. Na primeira década do século 21, entretanto, essa relação entre pesquisa acadêmica e Rock finalmente teve início, e desde então ela cresceu exponencialmente. Atualmente, a pesquisa sobre o gênero Rock é a que mais cresce entre as pesquisas de música popular e a prova disso foi que esta seção de comunicação precisou ser feita em dois salões vizinhos que tiveram suas divisórias tiradas, e ainda assim, ficou gente para fora. Vou destacar uma comunicação dessa mesa:

Complexos de Tônica Dupla no Gênero Rock [Double-Tonic Complexes in Rock Music] – foi apresentada pelo Prof. Dr. Drew Nobile (University of Oregon). Eu estava muito ansioso para assistir essa comunicação, já havia lido os trabalhos anteriores de Nobile e a sua abordagem sintática para as funções harmônicas é, na minha opinião, a teoria mais inteligente e útil para analisar harmonias do gênero. Ele não decepcionou, surgiu com essa nova teoria de complexos de tônica dupla, em que não apenas dois acordes podem ser ouvidos como tônica em uma música, mas que eles podem ser tocados simultaneamente em um único complexo, uma teoria que, segundo ele, se adequa mais a soul music. A idéia de poliacordes não é nova na harmonia, mas a idéia que esses complexos possam ter função de tônica é realmente interessante. Seus exemplos em canções de Sarah McLachlan, Hall & Oates e Beatles foram bastante convincentes.

3 – Transformações [Transformations]

Essa mesa organizada pelo Prof. Dr. Ed Gollin (Williams College) apresentou comunicações sobre a teoria das transformações, uma das teorias criadas por David Lewin e que teve diversos desdobramentos (um deles é a teoria neoriemanniana). Basicamente, a idéia da teoria das transformações é entender o que um objeto musical (acorde, escala, conjunto, textura, etc.) precisa para se transformar em outro. Ao catalogar as transformações dos objetos entre si, pode-se estender a teoria e a análise musical para além das funções e da tonalidades. Gostaria de destacar um trabalho em particular dessa mesa:

David Lewin e o “GIS Que Não Era”: Interações Entre os Pensamentos Musicais e Matemáticos no GMIT [David Lewin and the “GIS that Wasn’t”: Interactions Between Musical and Mathematical Thought in GMIT] – foi apresentada pelo Prof. Dr. Robert Wells (University of Mary Washington). Esse tema difícil foi conduzido brilhantemente por Wells primeiro explicando a noção de GIS (Generic Interval System) que foi apresentada por Lewin em seu livro Generalized Musical Intervals and Transformations (1987), também conhecido pela sigla GMIT. Na teoria de Lewin, GIS é uma maneira de se calcular intervalos musicais, mas nesse caso, o termo “intervalo” é colocado de uma maneira mais abrangente, podendo ser intervalos entre dois acordes, duas melodias, dois temas, duas escalas, etc. Toda a teoria de Lewin é bastante matemática e segundo Wells, o próprio Lewin não conseguiu adaptar o GIS ao ritmo, por conta de não conseguir entender como ritmos poderiam ser relacionados a números negativos. Wells demonstrou em sua apresentação uma possibilidade de estabelecer essa relação ao análisar o Canon Caranguejo de Bach em que a mesma melodia é tocada em dois sentidos gerando o canon. A partir daí ele estabelece valores rítmicos positivos para as posição das figuras em uma voz e negativos para a suas posições em outra voz, conseguindo assim gerar um GIS.

4 – História da Teoria [History of Theory]

Essa mesa organizada pelo Prof. Dr. Thomas Christensen (University of Chicago) apresentou comunicações dedicadas a história da teoria musical. Este é um dos assuntos mais levados a sério por aqui, pois o levantamento histórico de como a teoria musical evoluiu, quais foram os principais autores em cada época, quais foram as correntes que esses autores criaram ou se filiaram e como essas correntes concordam ou discordam entre si é essencial para se orientar em um estudo sério sobre o assunto. Gostaria de destacar uma comunicação dessa mesa:

De Rameau a Riemann: L’arte Armonica de Antoniotto: Um Elo Perdido entre Baixo Fundamental e a Tonnetz [From Rameau to Riemann: Antoniotto’s L’arte Armonica as a Missing Link from Fundamental Bass to the Tonnetz] – foi apresentada pela Profa. Dra. Deborah Burton (Boston University) que mostrou como o Livro L’arte Armonica de Giorgio Antoniotto, publicado em 1760 antecipou diversos conceitos que só vieram a ser retomados e reconhecidos nos livros de Hugo Riemann no final do século XIX. A forma como essa comunicação foi apresentada é que surpreendeu a todos pois a Dra. Burton apresentou seu texto como se fosse uma poesia, rimando cada verso durante os 30 minutos de sua palestra. Uma incrível demonstração de bom gosto e de capricho que fez o público aplaudir em pé ao final. Mas, além dessa forma criativa, o conteúdo de sua comunicação foi muito interessante, pois ela mostrou como o autor italiano antecipou em mais de 100 anos conceitos como enlace de acordes maiores por terça maior (que na teoria da música popular é chamado de sistema tritônico) e demonstrou tais enlaces em composições do século XVIII.

Bom, essa foram apenas algumas das incríveis comunicações que assisti. Infelizmente, é impossível assistir todas, pois diversas mesas ocorrem ao mesmo tempo em salas diferentes. Mas, quem quiser mais informações pode ir no site da SMT que eles publicaram um arquivo com o resumo de todas publicações.