Quero ser músico entrevista: Daniel Tápia

joão marcondes
A série Quero ser músico entrevista Daniel Tápia, violonista, engenheiro de som, educador musical e pesquisador de nível universitário.
Um prazer inenarrável coexistir com figuras tão gentis e generosas. Daniel Tápia é um desses iluminados, cujo assunto flui solto, repleto de troca e conhecimento.
Vamos lá!

ENTREVISTA

Nome: Daniel Tápia Cidade Natal: São Paulo Ano de Nascimento: 1986

Instrumento: Violão Formação Acadêmica: Doutor em Música Formação Livre: Violão, Violino e Clarineta.

1) Em que ano iniciou sua atuação como músico profissional?

Iniciei bastante cedo, aos 14 anos e como violinista. O ano era 2000.
 

2) Quais áreas atua diretamente como músico profissional?

Sou instrumentista (incluindo a atuação como áudio musicista), arranjador e professor de música.
 

3) Como foi a opção de se estabelecer instrumentista, engenheiro de som e pesquisador/educador acadêmico?

Desde o início de minha formação tinha a pretensão de ingressar no âmbito acadêmico e o desejo de ser professor. Assim sendo, procurei as etapas formativas desde o começo da graduação.
O instrumento violão, por sua vez, veio como objeto principal do meu estudo na música desde o início, sempre vinculado à prática musical como um todo.
O áudio musical, por fim, surgiu já depois de minha formação na graduação e por conta do meu desejo de trabalhar com as etapas de produção ligadas a ele. Terminou por ser meu principal ramo de estudo no meio acadêmico.
 

4) Em que momento experiências tão diversificadas na atuação do músico profissional convergem? 

A todo tempo. Entendo a música também como uma forma de pensamento. Sendo assim, o desenvolvimento que obtive e obtenho por meio de minhas atividades está sempre integrado a todas as práticas. Não consigo perceber, por exemplo, diferença fundamental entre minha atuação como áudio musicista ou como violonista. Basicamente, meu raciocínio de construção musical permanece o mesmo. E essas experiências práticas é que fazem surgir as questões ligadas ao ensino.

5) Como realizar o direcionamento inicial, estabelecimento e consolidação, para carreiras de atuação  diversificadas do músico profissional?

Creio que o direcionamento e estruturação das carreiras da música ainda seja um assunto nebuloso. O âmbito da música profissional ainda está definido de forma elementar, justamente por conta da dificuldade de se tornar precisas as formas de atuação e condições para tanto.
É mais músico quem estuda? Discordo disso. No entanto, o estudo e formalização da música tem aspectos muito importantes e certamente necessários para o desenvolvimento da profissão.
Assim sendo, me parece que a estruturação das carreiras se faça com base em uma continua interpretação do meio, das necessidades do mercado e das possibilidades de inserção. De forma inicial ou como manutenção de uma atuação profissional já longeva, é importante que o músico procure saber e entender suas possibilidades e a demanda que se faz por seu trabalho. Há sempre também a possibilidade de se trabalhar para que demandas sejam criadas, mas essas ações são normalmente realizadas a longo prazo.
 

6) Como manter a prática de instrumentista ativa quanto a técnica ante as demais áreas de dedicação do músico profissional?

É uma tarefa árdua! Mas eu creio que resida na organização do trabalho e melhora dos processos de estudo. Conforme a música vai fazendo parte do pensamento quase ininterruptamente, o exercício de sua prática também ocorre espontaneamente e sem o instrumento. Nesse sentido, conforme a demanda que se faz da prática instrumental, me organizo para estar pronto para o repertório de acordo com a necessidade.
E há uma certa libertação na observação objetiva. Eu, por exemplo, já entendi que manter um certo nível de prática não é compatível com múltiplas atuações. Entendi também que a música que quero fazer não depende desse nível. Portanto, abri mão daquelas características que estão vinculadas à uma coisa, mas não necessariamente à outra. Como exemplo, eu, que sou violonista, já não uso instrumentos com ação rígida ou cordas muito pesadas. Isso porque não preciso da projeção sonora (já que meu repertório musical não depende disso e sempre toco com amplificação) e, com um instrumento mais leve, posso me concentrar na qualidade do som que produzo e retomar o padrão com mais agilidade.
 

7) Como a prática de instrumentista contribui na atuação como educador/pesquisador? E na atuação de engenheiro de som?

Contribui e muito. Pessoalmente acredito que uma das características mais importantes da atuação como educador seja a de se fazer e destrinchar questões. E, na música especialmente, vejo que a maioria das questões está ligada à prática. Ao menos para mim, a maioria das questões que me fizeram mover vieram dos momentos em que fazia música com meu instrumento e sem ele.
Como uma das minhas jornadas de vida é a de demonstrar que o áudio musical é também uma forma de instrumento musical, vejo a coisa da mesma forma. O violão influencia o áudio tanto quanto o áudio influencia o violão. E ambos influenciam o professor.
 

8) Partindo de uma visão acadêmica, como avalia a formação universitária oferecida aos estudantes no Brasil ao que se refere a preparação para o mercado de trabalho do músico profissional?

Acredito que a maioria dos currículos de graduação no país seja boa em relação a sua abrangência e potencial artístico, mas me parece que temos muito o que caminhar no que diz respeito ao vínculo desses currículos com o mercado.
Minha crítica vai especialmente para o modelo de estudo que privilegia a ideia de que o músico formado deva ser um gênio da Arte, uma estrela. Isso pode até ser verdade em alguns casos, mas a imensa maioria dos músicos não encontra tal destaque e o mercado nem demanda isso. São muito necessários os músicos que atuam em instâncias menos visíveis, possivelmente até mais do que os expoentes artísticos.
Se a música for observada como função social, veremos que a sociedade quer a presença dela sempre e em muitos âmbitos distintos. Gostaria de ver um curso também focado nas diferentes instâncias de aplicação.
Como professor universitário e agente direto dessa questão, procuro sempre trabalhar no sentido de promover um esclarecimento das nossas possibilidades e uma melhor aplicação do que se aprende para o que se exerce. Acho isso fundamental.
 

9) Ainda baseado nessa experiência, então, quais elementos de formação o futuro músico profissional necessita aderir fora do ambiente da faculdade?

O ambiente acadêmico é muito fértil para o estudo e formação do Músico, mas não compreende tudo. Especialmente a experiência adquirida no exercício da profissão, que tem uma importância imensa. Creio que, durante a graduação, seja muito interessante a experiência de prática musical fora da faculdade. Ela fará surgir questões que, inclusive, tornarão a formação mais rica.
 

10) Como contribuir na escolha dos futuros músicos profissionais em “fazer ou não fazer faculdade de música”, ou na dúvida “bacharelado ou licenciatura”… Qual visão passar sobre essas opções?

Ainda acredito que um certo nível de formação musical esteja melhor representado pelos cursos superiores do que por formações alternativas. Ainda é mais fácil se aprender música profundamente na faculdade do que em outros lugares.
Sobre os modelos de curso, temos uma diferença significativa que deve ser mencionada: ainda que os cursos de bacharelado propiciem mais oportunidades de se aprofundar na prática artística, o diploma de bacharel não representa garantia de trabalho (como acontece em outras profissões, como a medicina).
Fundamentalmente, o músico prático é contratado por sua competência artística e profissional, raramente sendo requisitado o diploma para tanto. Isso é diferente no caso da licenciatura, uma vez que o diploma dá o direito de se tornar professor da escola regular ou investir na candidatura em concursos públicos e privados relacionados à educação. Dito isso, eu ainda acredito que a escolha pela licenciatura seja apenas para aqueles que pretendem dar aula ou ao menos também exercer atividades de ensino conciliadas com a prática artística.
 
PERFEITO! 
Caríssimo amigo Daniel Tápia agradeço a entrevista. 
 
Toda contribuição com uma nova geração de músicos profissionais, melhor formada, mais informada, é um legado que com certeza temos em comum.
 
Grande abraço
 
João Marcondes
Entrevista realizada por e-mail, em 15 de maio de 2018.
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João Marcondes
Professor João Marcondes é coordenador pedagógico das unidades Moema, Alphaville, Ribeirão Preto e Lençóis Paulistas. É idealizador e coordenador pedagógico dos programas Composição Popular - Letra e Musica, do Preparatório para Vestibular (extensivo e semi-intensivo), do Curso Técnico em Produção Musical, e da Pós-Graduação em Educação Musical, que ocorrem na unidade Paraíso. João Marcondes atua na instituição em tarefas administrativas como assistente de direção, e ainda é diretor da editora Souza Lima. É editor e autor do BLOG Souza Lima, com mais de quinhentas publicações (BR, ES e EN). É educador Musical, compositor, arranjador e instrumentista. Mestre em Educação Arte e História da Cultura, especializado em docência em música brasileira, graduado e técnico em música. Composições e obras disponível no Spotify, Deezer e iTunes Music.