Quero ser Musicista Entrevista: Vera Figueiredo

Um prazer inenarrável entrevistar a instrumentista de renome internacional Vera Figueiredo. Uma musicista que há muito tempo admiro, e que observo seu legado construído continuamente, sempre com ações novas e muitíssimo inspiradoras.

Espero que a entrevista contribua com sua formação, caro leitor, pois está repleta de aprendizado, de uma maneira impressionante!

ENTREVISTA #4:

Nome: Vera Lucia Figueiredo

Cidade Natal: São Paulo – SP

Ano de Nascimento: 07|09… o ano, não me lembro.

Instrumentos: Bateria e piano

Formação Acadêmica: Formada em piano clássico

Formação Livre: Bateria e Percussão

1) Como foi seu envolvimento inicial com a música? Quando decidiu intensificar a atuação e de fato profissionalizar-se? Em que ano?

Meu avô materno era de origem italiana e um apaixonado por música. Minha mãe puxou a ele na paixão, mas ambos não tiveram oportunidade de estudar, mas escutavam muita ópera.

Desde os dois anos de idade eu vivia batucando e pedindo muito aos meus pais para estudar bateria. Quando completei oito anos, finalmente eles decidiram que eu deveria mesmo ter um professor, e assim foi. Minha mãe sugeriu que eu estudasse piano ao mesmo tempo. Na verdade foi quase uma condição. Para eu estudar bateria teria que estudar piano também. A minha escolha pela bateria foi um pouco assustadora para a época (entregando a idade). Não era comum para uma garota ter uma profissão como essa, principalmente no Brasil. Eu tocava com amigos e amigas que estudavam no Conservatório Musical e quando chegava as férias, todo mundo viajava e eu ficava triste, porque eu queria tocar. Me lembro que nessa época, despertou um sentimento que tomou conta de mim: a música estava nas minhas veias e eu já não podia mais viver sem. Me apaixonei pela bossa nova, pelo Zimbo Trio, pelo Rubinho Barssoti, pelo Milton Banana. E quando me dei conta,  eu já estava tocando profissionalmente em uma banda de baile que se chamava Ice Company dos queridos Reynaldo (baixo) e Elizeu (teclados), músicos que tenho contato até hoje. Tocávamos em bailes, geralmente as sextas, sábados e domingos. Isso foi por volta de 1973.

2) Não me recordo de bateristas brasileiras na década de 1960, 1970. Quais as principais barreiras encontradas para o desenvolvimento da sua carreira? E como foi ingressar em um mercado tão sectário?

Em casa, a minha escolha apesar de ter sido muito diferente para os meus pais, eles me apoiaram, principalmente a minha mãe Renata que recém completou 99 anos de vida, linda! Ela é a minha paixão também!

Quando eu era pequena, aos olhos das pessoas eu era sempre uma gracinha, era sempre uma atração tocando e eu achava tudo lindo e maravilhoso, comparado a um conto de fadas. Curti cada momento!

No começo, passei por algumas situações constrangedoras. Escolher a música como profissão e ser mulher tocando um instrumento, que até então era, em sua grande maioria, tocado por homens, foi realmente um desafio, do qual particularmente, gostei bastante. O desafio não era ser mulher e baterista. O desafio é ser músico.

No início eu tive o privilégio de ser convidada pela pianista Eliane Elias para tocar em seu trio. Foi o primeiro trabalho instrumental que eu participei. O baixista era o querido e saudoso Nico Assumpção. Que honra a minha! Isso é que foi começar bem.

(Uau!)

Na questão de preconceito eu sempre digo que, ao escutar uma música não há como definir o sexo do músico ou mesmo de um cantor. Entrar nesse mercado e conquistar o próprio espaço é para todos e independe do sexo. Na verdade, precisamos estudar e estar sempre alerta sobre tudo o que está acontecendo no mundo da música.  Estar preparado para enfrentar e conquistar o mercado de trabalho. É muito importante ter um foco e ir com tudo em direção a ele. Não podemos desviar do nosso caminho.

Hoje, conquistei o meu espaço, e dou muito valor a isso. Sou responsável e séria. Respeito o palco e dou muito valor a ética. Também sinto em cada pessoa a admiração pelo meu trabalho. São mensagens que chegam através das redes sociais e nas apresentações ao vivo. Perseverança é uma qualidade que eu aprendi a ter. Saber esperar e quando a hora chegar agarrar a oportunidade.

3) Quem são suas principais referências como instrumentista? Professores, escolas, instituições? Como avalia a formação do musicista hoje comparado a formação das décadas passadas?

As influências são muitas. No começo, o Rock do Led Zeppelin e John Bonham foi demais. Curti muito Deep Purple, The Police, Genesis e logo Phil Collins na qualidade de baterista, pianista e maestro. Meu primeiro livro foi o do Gene Krupa outra inflência. Zimbo Trio e o baterista Rubinho Barsotti que foi o meu professor e com certeza o meu maior incentivador. Estudar com ele foi um sonho realizado. Ainda me lembro quando o vi pela primeira vez pessoalmente. Eu esperava por uma vaga para estudar com ele. Fiquei na lista de espera durante 1 ano. Eu sempre ligava e perguntava se tinham alguma novidade boa para mim. Então, um dia, resolvi ir até o CLAM – Centro Livre de Aprendizagem Musical pessoalmente e quando cheguei dei de cara com o mestre na recepção. Fui lá no dia certo e na hora certa. Nesse dia conversando, consegui o meu tão sonhado horário para estudar com ele.

É sempre bom lembrar que Milton Banana foi uma grande influência para mim. Escutei muitos discos dele e um em especial, o “Balançando”. Sempre ouvi muito Elis Regina, sempre escutando os arranjos do Cesar Camargo Mariano, sempre maravilhosos e sem dúvida a força dela cantando, para mim, única, sempre tocando a minha alma, uma paixão. Admirava e escutava muitos bateristas brasileiros como Toninho Pinheiro, Dirceu Medeiros, Airto Moreira. Os internacionais Steve Gadd, Buddy Rich, Art Blakey, Joe Morello, Jim Chapin, Colin Bailey. Os contemporâneos Dave Weckl, Vinnie Colaiuta, Billy Cobham, Robby Ameen, John Riley, Clayton Cameron, Zoro, a perseverança, o  positivismo deste incrível Dom Famularo. Aprendi a ter muita disciplina excursionando junto com Virgil Donati. Todos esses músicos, me influenciaram, sejam tocando ou através de seus livros. O pianista Bill Evans também foi uma grande influência para mim.

Estudei percussão com o professor John Boudler quando chegou ao Brasil para dar um curso no Festival de Inverno de Campos de Jordão, onde fui bolsista e tocar na Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo. Em seguida fui estudar com ele na UNESP, fazendo um curso livre. Me incentivou a prestar concurso por ocasião da criação da Orquestra Juvenil do Estado de São Paulo cujo regente na era John Nescheling. Passei em primeiro lugar e me tornei assim a timpanista oficial da orquestra. Foi uma grande experiência para mim, mas a bateria falava mais alto e o trabalho criativo me chamava… Acompanhei muitos artistas, e logo comecei a fazer o meu trabalho próprio.

Hoje os estudantes de música tem muito mais acesso a informação do que existia na minha época. Eu procurava livros de bateria e tinha somente o do Gene Krupa. Depois de muito tempo encontrei na antiga Casa Manon o livro Realistic Rock de Carmine Appice. Era tudo mais difícil, mas eram barreiras a serem tranpostas. Então estudar era, escutar e executar e sempre será uma excelente prática de estudo.  Hoje,  o acesso a material didático é muito fácil. Eu sempre comprei muitos livros no papel e vídeos, sou uma apaixonada. Hoje você encontra tudo pela internet. Pode baixar arquivos e livros inteiros, além do áudio. O estudante pode tocar com músicos incríveis adquirindo os materiais de playalong e suas partituras. Existem muitos programas disponíveis para escrever música e para gravação.

No entanto, as referências e escolhas por cursos online são sempre uma preocupação. Eu sou completamente a favor das instituições, suas tradições, escolas e professores referência. Um aluno que faz uma boa escolha e se dedica ao estudo com seriedade e responsabilidade, com certeza terá êxito. Existem ótimas escolhas, mas é muito importante ter consciência de que para ser um bom instrumentista é preciso tocar bastante, e que só a teoria, não é o suficiente.

4) Qual a importância de diversificar para a carreira de musicista? Estar em um programa televisivo (quando ainda estava), ter sua própria escola de música, tocar, gravar…

Ou você é um músico de uma banda que alcança o sucesso ou você é um músico preparado que alcança o seu espaço no mercado de trabalho fazendo diferentes trabalhos. Eu sempre fiz trabalhos instrumentais e tive muitos trabalhos fixos na noite de São Paulo, mas sempre com a condição de poder mandar um substituto, assim eu podia fazer bons trabalhos prazerosos e ter novas oportunidades. Toquei durante cinco anos de segunda a sábado em uma casa que se chamava Viva Maria. Era um trio: piano, baixo e bateria. Acompanhávamos os cantores que entravam no horário que tinha início às 01h40 min da madrugada e terminava às 03h50min. Toquei no tradicional restaurante Baiúca quando ainda era na Praça Roosevelt. Em alguns hotéis. Cheguei a ter três trabalhos todas as noites. No tradicional Tambar  com o baixista Sabá onde acontecia somente música e canjas boas. E, oportunidades sempre surgiram lá. Até Elis Regina eu conheci lá. Que emoção!.

Com o passar do tempo, passei a observar os meus colegas, principalmente os mais velhos. Um dia, eu parei para pensar e perguntei a mi mesma o que eu estaria fazendo quando chegasse aos 50 anos de idade. Foi então que eu resolvi mudar o rumo da minha vida profissional. Desde acordar cedo e ter uma vida mais saudável e produtiva. Eu já tinha alguns alunos em casa e também dava aula na casa de alguns. Surgiu a ideia de montar o IBVF – Instituto de Bateria Vera Figueiredo e isso se tornou realidade no ano de 1990. Eu amo ensinar, é realmente um prazer. Tenho alunos maravilhosos que me enchem de felicidade. É muito bom dar aula para estudantes interessados em aprender e fico muito feliz em poder transmitir meu conhecimento para eles. Ensinar é um grande aprendizado.

Master Classes, Workshops, performances são trabalhos que me realizam também. Sempre com um caráter didático. É muito bom. Já viajei o mundo fazendo isso tocando em festivais e eventos voltado para a bateria. Escrevi muitos artigos para as revistas BackStage, Musica & Tecnologia, Batera e Modern Drummer.

Acompanhei muitos cantores com suas bandas: os ingleses Ritchie e Malcom Roberts; Eu até perdi as contas de tantos cantores que eu acompanhei.

Com a Orquestra Filarmônica de San Francisco sob a direção de Nelson Motta acompanhei Nana Caymmi, Leila Pinheiro, Rita Lee, Daniela Mercury, Margareth Menezes, Milton Nascimento, Diana King, Vanessa da Mata.

Trabalhei 16 anos na TV Globo no programa Altas Horas. Lá, além de tocar com a banda Altas Horas eu também escrevia vinhetas para o programa. O programa que estreou no ano 2000 com a madrinha Rita Lee, teve como abertura uma música  minha chamada Bakana. Eu adorava fazer isso. Todas as integrantes da banda escreviam. Eu também era responsável por encontrar os autores de todo o repertório tocado por nós e enviar previamente para o responsável e obter a liberação junto ao ECAD. Antes de definir o repertório do dia, batia o martelo com o Sergio Groisman que era nosso diretor. Acompanhamos muitas artistas e também participamos de muitos programas especiais. Mesmo trabalhando lá, eu continuava fazendo outros trabalhos e eventualmente podia faltar, mandando sempre um substituto que ele aprovasse. Isso aconteceu muitas vezes.

Também participei de muitos programas de TV.

Ser versátil é importantíssimo, estar pronto para o que der e vier e dar conta. Tenho me apresentado com meu trio o show Brasileira. Já rodei algumas unidades do SESC apresentando esse que eu considero um lindo trabalho que inclui composições de Jacob do Bandolim, Tom Jobim e Vinicius de Moraes, além das minhas composições. Esse é um trabalho que prezo demais, é como um diamante que precisa ser lapidado para continuar sempre brilhando. Recentemente fui convidada a participar do Musical Carpenters e gostei muito da ideia de estar fazendo esse trabalho e tocar em cima de um VS, ou seja, o Musical é inteirinho clicado. Somente duas músicas não são. A versatilidade é uma qualidade importante em um músico.

O IBVF também é uma produtora e desde 1996 eu comecei a fazer eventos. O primeiro deles foi com o baterista Billy Cobham e logo Carmine Appice. Alguns shows como os de Mike Stern Trio e workshops com os ilustres Dave Weckl, Dennis Chambers, Virgil Donati, Zoro, John Riley, Jim Chapin, Clayton Cameron, o professor da Berklee Sergio Belotti, Daniel Baeder – ex band leader do Cirque Du Solei e muita gente maravilhosa. Também produzi 15 edições do Batuka! Brasil, evento dirigido a bateria e percussão que contava com shows, workshops, performances, exposição de instrumentos, além de proporcionar a revelação de novos excelentes bateristas através do Concurso Nacional de Bateristas.

Adoro desafios.

5) Um dica aos estudantes e ouvintes: Quais os seus trabalhos fonográficos pessoais a que considera referenciais?  

Todos os meus trabalhos foram feitos com muito capricho e coração. Gravei aulas em VHS, as primeiras do mercado brasileiro. Com áudio e vídeo. Não me lembro quantas foram, mas foram muitas. Depois foi a era do DVD. Gravei os “40 Rudimentos” e também um dvd que eu chamo de dois em um com os temas “Ritmos Afro-Brasileiros” e  “Influência Afro-Cubana” com legendas em inglês.

No meu disco de estréia- Vera Figueiredo, Banda Nuapaco e Convidados já com composições minhas, eu tive a honra de ter a participação especial de Hermeto Pascoal, que além de gravar tocando a música de Luiz Gonzaga –  “Paraíba”, também compôs a música “De Vera” para mim. Neste disco conta ainda com a participação da pianista Silvia Góes com quem toquei durante muito tempo e os multi-instrumentistas Arismar do Espírito Santo e Derico Sciotti, os baixistas Serginho Oliveira, Itamar Collaço e Gê Cortes, o pianista autodidata Alex Frontera, o saxofonista Ed Cortes e ainda os convidados Mauricio de Souza no sax-barítono, e o trombone de Valdir Ferreira. O saudoso e sempre querido percussionista Rubinho Chacal. Este disco está disponíveis em vinil, cd e em todas as plataformas digitais e também na Amazon. Esse álbum foi quase todo gravado ao vivo no estúdio Camerati em Santo André – SP.

Meu segundo disco “From Brasil”, eu tive a honra de ter as participações dos internacionais, o trombonista americano Mike Fahn e do baterista Billy Cobham. Com este trabalho fiz no ano de 1996 a minha primeira tour internacional pelo Reino Unido juntamente com o baterista Virgil Donati. Foi incrível e um grande aprendizado. Foi um sucesso. Também com o quarteto composto pelo virtuoso pianista Marcos Romera, Vitor Alcântara ( sax-tenor) e Itamar Collaço (contra baixo), nos apresentamos no Troubadour – West de Hollywood e no famoso Baked Potato Jazz Club.

Meu terceiro disco “Vera Cruz Island” foi um divisor de águas na minha carreira.

O crítico de música Regis Tadeu escreveu: Vera Cruz Island, o terceiro disco da baterista, marca um momento de maturidade de Vera como instrumentista e compositora: “Vera Cruz Island é uma espécie de álbum de fotografias da alma de Vera: intenso, com belas imagens e cheio de paixão pela sua arte” “Sua música é poderosa e repleta de tradição” – Ken Micallef (revista Modern Drummer/EUA).

Este disco foi matéria de muitas revistas internacionais. Foi demais!

Baseado neste disco foi lançado, pela editora americana Hudson Music, o play-along Vera Cruz Island – Brazilian Rhythms for Drumset, que conta com distribuição mundial e em formato e-book disponível somente em inglês.

6) Conheço esse álbum Vera Cruz Island, adoro, como é produzir um trabalho em um momento em que o mercado fonográfico parece alheio a um trabalho artístico?

Sabe, faz muito tempo que não me importo com o que o mercado fonográfico pensa. Os meus dois primeiros discos tiveram o apoio das gravadoras, porque os seus proprietários são apaixonados por música e por bons trabalhos artísticos, então vale a pena conhecer pessoas e ter amigos como estes. Eu falo de Luiz Calanca e Claudio Lucci. São bravos!

O meu querido amigo Charles Gavin ex-baterista dos Titãs é um grande exemplo disso. A preciosa contribuição que ele está deixando para a nossa música, e isso vai além do que uma gravadora quer, porque, ele quer, ele sentiu a necessidade de fazer algo, de contribuir. Nós queremos e nós temos que manter essa chama acesa para que as próximas gerações tenham acesso a essas informações. Ele resgatou muitos discos de vinil e faz um belíssimo programa de entrevistas que se chama o Som do Vinil, no Canal Brasil.

O “Vera Cruz Island” foi o disco que mais frutos me deu. Viajei o mundo tocando esse trabalho e que recepção eu tive. Toquei em festivais na Suécia, Luxemburgo, Alemanha, Espanha, Portugal, Estados Unidos, Austrália, Canada, Itália, Argentina e muitos outros países. Me rendeu matérias em revistas internacionais. Fui capa de revistas. Eu realmente investi! E valeu muito!

Com a participação dos maiores bateristas do mundo: Dave Weckl, Dennis Chambers, Virgil Donati e do guitarrista Mike Stern, além dos brilhantes músicos brasileiros no baixo acústico Célio Barros e Pedro Ivo no baixo elétrico, o disco contou com arranjos meus e do pianista Maurício Marques. Este trabalho contou com a participação de 26 músicos. Foi pensado e elaborado com muito carinho e já com a ideia de virar um livro, um songbook. Junto com Mauricio Marques, fiz uma pré-produção e o disco foi gravado 100% com click. Foi um trabalho sério e muito profissional.

A verdade é que agora somos reféns das plataformas digitais e esse é o momento. Agora é áudio e vídeo. É assim que as coisas funcionam. Estamos no You tube, facebook, instagram, twiter. É o que está on! Eu uso muito o you tube nas aulas. É uma boa ferramenta. E o google também é.

7) Como é o mercado musical em sua visão perante a sociedade? Liliam Carmona é outra referência feminina da bateria. Quais outras musicistas destaca? As oportunidades para consolidação da carreira das musicistas e dos musicistas são as mesmas?

O mercado para a boa música perante a sociedade acho que é bem carente, mas existem espaços abertos e para aqueles que sabem apreciar a boa música. Outro dia toquei no JAZZ B, um espaço que oferece um piano de cauda… olha só. Foi um sábado e estava completamente lotado.  Temos o Jazz Nos Fundos, temos o All Of Jazz que também é muito bacana. E existem muitos outros bares que chamamos de alternativos para tocar música instrumental. Agora também no Brasil o Blue Note. Agora se eu for pensar o que os pais querem para os seus filhos, eu concordo que eles preferem que seus filhos tenham uma outra profissão. Mas eu e muitos outros músicos somos referencia de uma carreira consolidada que não foi fácil, mas estamos aqui. A Liliam Carmona é outro exemplo de vitória! A Simoni Soul faz um trabalho muito bacana. A Bruna Barone que também estudou comigo está presente nos Musicais. Nina Pará, Paula Padovani , todas, são instrumentista e sabem bem o que querem, todas são professoras e profissionais da música. A Carla Dias que trabalha comigo a exatamente 26 anos e que além de escritora, também é baterista. Eu tenho dado aula para alguns alunos e alunas que possuem uma consciência e uma determinação incrível. Em um mundo onde as aulas virtuais estão em alta eu gostaria de citar o Paulo Milani Supi, baterista profissional que viaja quase 7 horas de ônibus para fazer aula comigo. Também a baterista profissional Hadassa que viajou 9 horas de Belo Horizonte para fazer aula comigo. Então eu acredito que a aula presencial ainda é o canal.

Eu também acredito que as oportunidades e a consolidação da carreira entre músicos de ambos os sexos, só depende de si mesmo. Cada um faz a sua história e tem que mergulhar e é de cabeça. Eu sempre corri atrás!

8) Como avalia a derrocada do mercado editorial, dada sua participação em revistas para bateristas, e a ascensão progressiva da internet? O músico dos dias de hoje está mais bem informado que no tempo dos livros e revistas? 

A derrocada do mercado editorial é para mim muito triste! Eu ainda tenho um gravador estéreo de fita cassete. Meu pai me deu, compramos em Londres. Uma relíquia! Um Sony.

O Ipod já saiu de linha, mas ainda tenho um. Em contra partida, tenho um Ipad, um Mac, e um PC. Eu posso ler utilizando essas ferramentas, mas ainda prefiro o papel. Estou tocando no Quarteto do compositor e pianista Beto Bertrami e ele escreve todas as partes na caneta, no papel…que valor!

Tenho inúmeras fitas em VHS, fitas cassetes, muitos dvds, tenho muitos discos, alguns vinis e muitos cds. São o meu patrimônio. Será que alguém vai querer algum dia? Ou irá para o lixo? É triste não é?

E os vídeos? E as fotos?

No mundo de hoje quem não se organizar, perde todos os arquivos preciosos. Você precisa sempre estar salvando tudo. Um texto, uma letra, um áudio, um vídeo, mas também existe a facilidade de encontrar muitos arquivos puxando na internet. Ao mesmo tempo uma tecla pode ser responsável pela perda de todo um trabalho.

9) Quais projetos a instrumentista Vera tem pela frente entre cursos, discos, livros?

Tenho músicas minhas, somente áudios gravados com ilustres músicos. Preciso terminar, mixar e lançar nas plataformas digitais. Gravei com Marcos Romera, Romero Lubambo, Mike Stern, Jojo Mayer, Robby Ameem e tem mais surpresas.

Recém fui convidada pela Editora Passarim para traduzir para o português um livro de bateria da Berklee  College Of Music. Se chama Método Prático Berklee – Toque Com Sua Banda. Os autores são Ron Savage e Casey Scheuerell. Fiquei muito honrada por ter o meu nome associado a esta grande escola que recebe estudantes e profissionais do mundo inteiro. Este livro acaba de ser impresso. Amei!

Continuo fazendo workshops, master classes e shows, todos PRESENCIAIS. E estou no espetáculo CARPENTERS O musical.

Próximas datas:

Dia 12/05 – Show com o Beto Bertrami Quarteto – Blue Note – SP

Dias 18 e 19/05 – Carpenters o Musical – Teatro UMC  – SP.

Dia 26/05 – Carpenters o Musical – Teatro Municipal de Santo André – SP.

Gostaria de agradecer aos meus patrocinadores pelo apoio de todos esses anos. Sabian, Mapex, Vic Firth, Audix, Gope e Evans.

Agradecer sempre aos meus pais Antonio e Renata pela educação que me proporcionaram e ensinamentos para encarar a vida. Sou muito orgulhosa de ter nascido onde nasci.

Agradecer a iniciativa da Instituição Souza Lima tão prestigiada por essa serie de entrevistas.

Obrigada João Marcondes!

Caríssima Vera, eu quem agradeço muitíssimo a entrevista. A contribuição com uma nova geração de musicistas profissionais, melhores formados, mais informados, é um legado que com certeza teremos em comum.

Mais informação sobre a Vera, entre em seu www.verafigueiredo.com.br

Um abraço!

João Marcondes

Entrevista realizada por e-mail em 22 de abril de 2019.

SHARE
Previous articleEducador musical brasileiro em experiência internacional – CLAEM – COLÔMBIA
Next articleQual a diferença entre música erudita e música clássica?
João Marcondes
Professor João Marcondes é coordenador pedagógico das unidades Moema, Alphaville, Ribeirão Preto e Lençóis Paulistas. É idealizador e coordenador pedagógico dos programas Composição Popular - Letra e Musica, do Preparatório para Vestibular (extensivo e semi-intensivo), do Curso Técnico em Produção Musical, e da Pós-Graduação em Educação Musical, que ocorrem na unidade Paraíso. João Marcondes atua na instituição em tarefas administrativas como assistente de direção, e ainda é diretor da editora Souza Lima. É editor e autor do BLOG Souza Lima, com mais de quinhentas publicações (BR, ES e EN). É educador Musical, compositor, arranjador e instrumentista. Mestre em Educação Arte e História da Cultura, especializado em docência em música brasileira, graduado e técnico em música. Composições e obras disponível no Spotify, Deezer e iTunes Music.