Quem foi João Gilberto?

João Gilberto

O Brasil valoriza tanto as histórias de sucesso esportivo, de redenção, de conquistas internacionais, seja de um nadador, de um tenista, de um ou dois pilotos, e de dezenas de futebolísticas, para tão pouco valorizar os artistas que aqui foram forjados?

João Gilberto morreu neste sábado frio, seis de julho de 2019, praticamente sessenta anos depois do lançamento de seu disco Chega de Saudade. E João Gilberto como antítese de tudo que compõe os conceitos superlativos; se de um violonista virtuoso e rápido, que não era; se de um cantor de potência, que se era preferia esconder. De intérprete que da bossa-nova que só teve como algoz um período, já que João se encantou em cantar as composições brasileiras e latinas que vinham desde a década de 1940.

Recluso em uma genialidade inesperada. E inesperada porque o Brasil também maltrata seus migrantes. João Gilberto nascido em Juazeiro, Bahia, antes de se consolidar o artista que foi, transitou por cidades e estados brasileiros. Ficou conhecido aos 26 anos de idade, e reconhecido ao mundo poucos anos depois.

Hoje deveria ser feriado nacional! E não é! Solenidades deveriam mover nosso país como se faz para as maiores personalidades em outros países. Mas no Brasil não é assim.

Quem é João Gilberto aqui? Se eu dissesse que parece que ninguém você acreditaria?

O Presidente do Brasil declarou depois de perguntado que lamenta a morte dessa pessoa que é “conhecida”, e desejou condolência a família do conhecido, repito depois de perguntado afirmou que lamenta a morte dessa pessoa que é “Conhecida”.

Não Presidente Bolsonaro, não mesmo!

João Gilberto não é conhecido, é reconhecido, aclamado, vangloriado, enaltecido, reverenciado, exaltado no mundo…

Aqui não têm luto nacional pela perda desse monumento do fazer musical e artístico brasileiro. E o problema não é do presidente que recentemente publicou lamentações profundas a um personagem chamado MC Reaça (de reacionário), valorizando “seu Dom e ampla contribuição para um Brasil melhor”, esse personagem que agrediu a amante que estava grávida e se matou a seguir. Essa homenagem póstuma ao MC Reaça feira pelo presidente da República do Brasil foi publicada no Twitter no dia 2 de junho. Quem? O problema é da forma que o Brasil se comunica.

Não há no Brasil uma emissora de rádio especializada em Bossa-Nova. Dá pra acreditar?

As emissoras são dominadas por oligarquias. Por exemplo, o candidato a presidente do pleito de 2014 possui uma dezena de frequências de rádio, concedidas ao longo da ditadura militar brasileira.

O Brasil melhor

João Gilberto, senhor presidente é a pessoa para se dizer da ampla contribuição para o Brasil melhor. Cada vez que saio do país, presidente, para falar sobre música recebo o quanto se valoriza a bossa-nova de João Gilberto. Embora nem sei se João Gilberto é bossa-nova, só sei que ele é muito mais que o Brasil dos esportistas que deu certo.

Quem quer saber de Copa América? É luto.

Quantos intérpretes mudaram a música do mundo, presidente? Sim, João Gilberto era um intérprete, aquele que reconstrói uma composição sem compor. E mudou a forma de se fazer música no mundo.

Posso garantir que eu, quem escreve esse misto de homenagem e desabafo, não estaria aqui se não fosse João Gilberto.

Nosso BLOG não fala de política, não fala de direita ou de esquerda, nosso BLOG se contenta em orientar novos músicos e estudantes, falar da música brasileira de maneira a guiar ouvidos, mas só existe por vontade de uma pessoa que lamenta o Brasil enterrar hoje seu maior artista, quase que anonimamente.

No Brasil foi implementado desde 2017 um status quo de perseguição pública para quem vive de arte.

O Brasil desde o início de 2019 não tem mais Ministério da Cultura.

Que espaço nós temos para lamentar a violência que vivemos? O espaço que nós mesmos criamos?

O presidente vai passar como outros já passaram. Direita, esquerda, centro, o que for. Mas ainda falaremos de João Gilberto. Quem é o conhecido então?

Obrigado João Gilberto simplesmente por ter existido, insistido, e consolidado uma obra pequena em número de fonogramas, mas imensa em realização. Um tal de Frank Sinatra registrou dois discos com repertório de Tom Jobim, mas a voz que ecoa o maestro soberano desse país de esquecimento chama-se João Gilberto.

Ouça a obra completa, não há orientação melhor. Habitue-se que mesmo seis décadas após o lançamento de seu primeiro fonograma, o que fez esse artista ainda é novo.

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João Marcondes
Professor João Marcondes é coordenador pedagógico das unidades Moema, Alphaville, Ribeirão Preto e Lençóis Paulistas. É idealizador e coordenador pedagógico dos programas Composição Popular - Letra e Musica, do Preparatório para Vestibular (extensivo e semi-intensivo), do Curso Técnico em Produção Musical, e da Pós-Graduação em Educação Musical, que ocorrem na unidade Paraíso. João Marcondes atua na instituição em tarefas administrativas como assistente de direção, e ainda é diretor da editora Souza Lima. É editor e autor do BLOG Souza Lima, com mais de quinhentas publicações (BR, ES e EN). É educador Musical, compositor, arranjador e instrumentista. Mestre em Educação Arte e História da Cultura, especializado em docência em música brasileira, graduado e técnico em música. Composições e obras disponível no Spotify, Deezer e iTunes Music.