Composição: Como musicar um poema?

Primeiramente entre minhas canções gravadas, assumo, poema musicado são poucos. E embora tenha estudado  formas de como musicar poesia, a prática composicional concedeu resultados a mim por outro viés.

Como processo criativo ou compus obras integralmente – letra e música, ou música apenas (que permanece instrumental) ou letra para música em processos separados.

No início, como minha origem parte do samba, desenvolvi parcerias oriundas de encontro informal. Tocando e cantando por aí. Normalmente se fazia conjuntamente letra e música, o que traz dificuldade em identificar o que é de quem.

Normalmente em uma parceria dessa espécie surge um terceiro compositor, que não é A, e que não é B, é o resultado, soma dos fatores.

Quando me formei músico, não me refiro apenas ao ciclo universitário, mas ao ciclo de aprendizagem da harmonia, forma, desenvolvimento, instrumento -, criei o hábito de compor canção separadamente. É fato que o isolamento das ações composicionais enriquecem a criação. Quando tratamos somente do texto, somente da música, independente da ordem dos fatores atingimos resultados maiores – fato comprovado pela discografia da canção e de seus compositores.

Parti primeiramente compondo uma melodia harmonizada. Para a seguir compor uma letra.

Compor um texto, em forma de poema, com rimas, e métrica, e a seguir musicar, é o reverso natural, e que traz excelente frutos a uma obra – algo que a discografia também aprova.

No meu caso, não há uma melodia minha com letra feita por outra pessoa. Mas há letras minhas para melodias de outros compositores (essas muitas). E sempre integralmente.

Entre minhas canções tenho apenas uma ou duas parcerias originadas por letras minhas e que foram musicadas por outro compositor. Poema musicado?

Sim. E como se desenvolve esse processo?

Primeiramente orienta-se pela definição: a palavra possui uma certa linha melódica. Da inflexão, gesto e prosódia.

Parta de uma única altura. Implementando ritmo ao texto em particular.

A seguir observe: se parte do texto possui finalização com som aberto, a melodia deve respeitar o alicerce da palavra. Experimente então musicar com uma melodia de curvatura ascendente – aos sons que de dirigem ao agudo.

Se parte do texto possui finalização com som fechado, a melodia deve respeitar da mesma forma o alicerce da palavra. Experimente musicar com uma melodia de curvatura descendente.

Embora a métrica perfeita de uma poesia favoreça o musicalizar, ela não é primordial.

João Cabral de Melo Neto considerava sua poesia sem propriedade musical. E eis que um jovem Chico Buarque musicou o texto de “Morte e Vida Severina” – de forma lúdica, e de resultado muito interessante.

Embora a rima seja esperada na construção de uma letra, ou na poesia que se pretende musicar, a rima também não é primordial.

Você já toca um instrumento?

Se sim, escolha um conjunto de notas, ou uma escala, inicie pela fundamental, quinta, e experimente passo a passo, nota por nota musicar.

  1. Tal qual a poesia, a música possui a ideia de frase. Uma frase melódica deve respeitar a frase da poesia sem causar impacto sobre o texto. Evite estender uma frase melódica a ponto de quebrar o texto da poesia, palavras conectadas por frases melódicas indevidamente modificam a compreensão do texto.
  2. Frase melódica e frase textual devem então seguir a mesma toada.
  3. Intuitivamente um estilo e gênero para a canção surgirão. Estabeleça referências estéticas, a seguir.

A composição, assim como o estudo de um instrumento, se estabelece por prática repetitiva. Realize diariamente um estudo. Descarte o que desagrada. Amadureça o que agrada.

Você não toca um instrumento é quer musicar um poema?

Alguns compositores célebres da música brasileira desconheciam a prática do instrumento.

Entre eles o poeta Paulo Vanzolini, autor de canções expressivas; ou o compositor Adoniran Barbosa, autor de obras primas da música brasileira; o compositor baiano Batatinha e Wilson Batista, também não tocavam instrumentos musicais.

Provavelmente criaram algumas canções, com texto e melodia imediatamente compostas.

Como eles compunham então?

A resposta está na experiência estética. Não é preciso ser músico formado para musicalizar um poema, não é preciso conhecer harmonia, ou tocar um instrumento, é preciso conhecer muita música. Muita melodia. Muita canção. Muita letra. E experimentar.

O primeiro aprendizado é oral. Não deixe que as regras tolham sua criatividade.

Paulo Vanzolini, por exemplo, como poeta possui letras musicadas por outros autores como o paulistano Eduardo Gudin.

Vamos em frente!

A seguir faremos outros textos para a ocasião, que antevem o nosso curso livre de composição popular.

Ouça a canção “Realmente” de 2006, compus primeiramente música para a seguir compor letra.

Texto atualizado para ocasião da aula de Composição Popular – Letra e Música, ocorrida dia 11 de abril de 2019.

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João Marcondes
Professor João Marcondes é coordenador pedagógico das unidades Moema, Alphaville, Ribeirão Preto e Lençóis Paulistas. É idealizador e coordenador pedagógico dos programas Composição Popular - Letra e Musica, do Preparatório para Vestibular (extensivo e semi-intensivo), do Curso Técnico em Produção Musical, e da Pós-Graduação em Educação Musical, que ocorrem na unidade Paraíso. João Marcondes atua na instituição em tarefas administrativas como assistente de direção, e ainda é diretor da editora Souza Lima. É editor e autor do BLOG Souza Lima, com mais de quinhentas publicações (BR, ES e EN). É educador Musical, compositor, arranjador e instrumentista. Mestre em Educação Arte e História da Cultura, especializado em docência em música brasileira, graduado e técnico em música. Composições e obras disponível no Spotify, Deezer e iTunes Music.